#40tenaDoAxé: Cosme e Damião adoçam devoção tuitada das religiões afro-brasileiras
A festa dos erês que se divertem na ciranda da fé entre o catolicismo, a umbanda e o candomblé

Seguidores de religiões de origem africana adoçaram as postagens ao longo de toda esta segunda-feira, 27 de setembro, data em que se comemora, tradicionalmente, o Dia de São Cosme e São Damião.
Ou melhor: os ‘erês’, como se cultua na umbanda, onde os santos católicos são relacionados a espíritos evoluídos de crianças ou as entidades que ligam o praticante do candomblé ao seu Orixá (uma divindade).
Brincalhonas ou comedidas, as reações dos adeptos internautas agitaram as redes sociais com manifestações alusivas aos sentimentos guardados no dia – alegria, paz, diversão, entre outros – de modo a promover as religiões afro-brasileiras.
HAJA AÇÚCAR!
As principais menções foram às guloseimas servidas à garotada, conforme reza a tradição do dia. Apareceu gente com a boca melada, imagens dos saquinhos de guloseimas e, claro, muitas crianças – negras e vestidas com roupas alusivas aos santos.
“Hoje é dia de mostrar que todos nós temos uma criança guardada aqui dentro. Oni Ibeijada”, escreveu @NossosOrixas. “Que a doçura, alegria, felicidade façam parte de nossos dias e que os médicos Cosme e Damião tragam cura para essa pandemia que estamos vivendo”, desejou @aldeiacigana.
Houve quem criticasse a intolerância religiosa. “Que mané rejeitar doce de Cosme e Damião porque é oferecido do diabo (sic). Você se oferece sempre e nem por isso te chamam de Satanás”, pistolou @leandrolegaau.
SINCRETISMO
Foi pelas junções entre as doutrinas africanas e a cultura do lado de cá do Atlântico que sugiram o candomblé e a umbanda. Do primeiro nasceu o sincretismo com a Igreja Católica através do culto, por exemplo, a Cosme e Damião.
Inicialmente, não era necessariamente pelos santos gêmeos que os negros rezavam no período do Brasil colonial. Sufocados em seus próprios cultos, eles precisavam ‘simular’ o culto aos orixás e o faziam utilizando-se de figuras sacras católicas.
A associação de Cosme e Damião com a oferta de doces se dá pela oferenda ao erê, própria das religiões afro-brasileiras. O culto católico, por sua vez, se resume a celebrações litúrgicas em homenagem aos santos.
DOUTORES PADROEIROS
Segundo a tradição católica, São Cosme e Damião teriam nascido na Península Arábica no ano de 260 depois de Cristo, de quem sua nobre família herdou a fé e os educou à luz da ciência e da Medicina da época.
Formados pela escola Síria, dedicaram-se aos cuidados de idosos e enfermos sem nada cobrar pelo serviço. A fama dos médicos incomodou o imperador Dioclesiano, que os prendeu sob a acusação de ‘feitiçarias’.
Condenados à morte, recusaram-se a renegar a fé. Foram lançados ao fogo, apedrejados, atingidos por lanças e, por fim, decapitados. Canonizados no século VI, São Cosme e São Damião são os padroeiros dos médicos e farmacêuticos.
DATAS DISTINTAS
Embora compartilhem dos mesmos santos, embora com enfoques espirituais distintos, católicos e adeptos de religiões afro-brasileiras comemoram Cosme e Damião no mesmo dia apenas por tradição.
Desde 1969, o 27 de setembro ficou exclusivo aos terreiros. No calendário católico, a data passou a ser reservada à reverência a São Vicente de Paulo (1581-1660), em virtude do seu falecimento neste dia.
Na prática, nos rincões religiosos onde o sincretismo não determina onde começa uma religião e termina a outra, é bem provável que se observe a garotada a caminho da missa com a sacolinha de balas de São Cosme e São Damião debaixo do braço.
