#11deSetembro: Até que ponto resistirão as torres da democracia no Brasil?
Ainda pairam nos céus da República as iminentes ameaças aos pilares institucionais que nos mantêm de pé como nação

Há exatas duas décadas, a serem completadas neste sábado, 11 de setembro, os Estados Unidos da América (EUA) foram surpreendidos com ataques terroristas sem precedentes em sua história moderna.
A bordo de aviões de carreira, suicidas fundamentalistas islâmicos da al-Qaeda lançaram-se contra as ‘Torres Gêmeas’, em Nova Iorque e o Pentágono, em Virginia. Outra caiu na Pensilvânia.
O saldo da tragédia: 2.996 mortes e 6.291 feridos, segundo o anúncio oficial. Em resposta, os EUA iniciaram a ‘Guerra ao Terror’ no Afeganistão – esta mesma encerrada em 30 de agosto último, em meio à volta dos terroristas do Talibã ao poder.
NOSSAS DÉCADAS
À época presidido por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o Brasil, que havia contado a perda de três vidas, calculava, com pessimismo, os desdobramentos econômicos no cenário internacional após os ataques.
Passaram-se os anos, e as crises econômicas e políticas se sucederam no país: da quebradeira provocada pela bolha imobiliária dos EUA, em 2008, aos escândalos do Mensalão e Petrolão e à queda da presidente Dilma Rousseff, por impeachment, em 2016.
Ao longo deste tempo, o protagonismo da cena política brasileira transitou do Congresso Nacional ao Supremo Tribunal Federal (STF), e vice-versa, amplificado pelas investidas da Operação Lava Jato.
DECORO DE RESISTÊNCIA
Em que pese as tensões provocadas entre os três Poderes da República – Executivo, Legislativo e Judiciário –, patrocinados pelos interesses de políticos réus daqui e celebridades togadas de lá, manteve-se o decoro no trato entre as partes.
As declarações mais agressivas registradas neste período foram expressadas pelos deputados federais, ainda assim, por ocasião da votação do impeachment de Dilma Roussef, aprovada por ampla maioria de votos (367 contra 137).
Entre os que aprovaram o impedimento da presidenta estava o atual ocupante do cargo, Jair Messias Bolsonaro (sem partido, à época filiado ao PSC), que polemizou ao votar “pela memória do coronel (e torturador) Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), o pavor da Dilma”.
ATAQUES DE CIMA
Eleito ao maior cargo público do país na esteira de grandes manifestações populares – as de 2013, com milhões nas ruas, foram emblemáticas – Bolsonaro assumiu o Palácio do Planalto com a “missão divina” de um país “acima de tudo”.
Do alto de seu cargo, não demorou muito para que ele continuasse a atingir seus velhos alvos: a imprensa, as mulheres, representantes da comunidade LGBTQIA+, os quilombolas, além de seus inimigos políticos de direita, centro e, principalmente, esquerda.
Mas a lista aumentou, perigosamente. Foram acrescentados aos seus arroubos o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (sem partido) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
BASES SÓLIDAS
As tensões atingiram ápice nos atos pró-governo realizados em 7 de Setembro, quando o presidente subiu o tom das críticas, a ponto de xingar o ministro Alexandre de Moraes de “canalha” e dizer que “nunca” seria preso.
Aliado ao presidente, o chefe da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) falou em pacificação. Do outro lado do Congresso Nacional, o mandatário do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que a “crise real” não seria resolvida com “autoritarismo”.
Em pronunciamento, o presidente do STF, o ministro Luiz Fux, mandou um recado direto ao presidente, sem precisar citá-lo, nesta quarta (8): “O STF não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões”.
Ao lado dele, o procurador geral da República, Augusto Aras, classificou as manifestações de apoio ao presidente como uma “festa cívica”, apesar dos pedidos inconstitucionais de intervenção militar de simpatizantes a Bolsonaro.
Passadas pouco mais de 48 horas após seus discursos na avenida Paulista, em São Paulo, Bolsonaro recuou. Orientado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) publicou uma ‘Carta à Nação’ na qual disse não ter tido a intenção de agredir quaisquer dos Poderes.
Ou seja: apesar dos ataques do presidente, prevaleceram as instituições. Mas, pouco afeito a longos períodos de paz, não é de se duvidar que, em mais um arroubo suicida, Bolsonaro atente novamente contra os chefes dos outros poderes.
Poderá ser sua última guerra na presidência. Ao capitão restará deixar sua terra de combate como último soldado de um projeto de governo que ele próprio ajudou a derrubar.
